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23 de jul de 2010

Saúde Mental das crianças e adolescentes brasileiros- Dados da pesquisa

Atenção Brasil !




Fosse você um menino adolescente de classe econômica baixa, filho de pais separados e vivendo apenas com a mãe, analfabeta e que fez uso de tabaco e álcool durante a sua gestação, suas chances de ter índices normais de Saúde Mental e bom desempenho escolar seriam consideravelmente menores, concorda? Pois então, vejamos: por ser menino um risco 60% maior de ter baixos índices de Saúde Mental e baixo desempenho escolar, por ser adolescente 41%, por pertencer a classe econômica D ou E 210%, por ter pais separados 100%, por não morar com ambos os pais 220%, pelo baixo grau de instrução do chefe da família 250% e, por sua mãe ter usado tabaco ou álcool durante a gestação, respectivamente, 80% e 140% maior o risco de fracasso.


Condição bem diferente você encontraria se fosse menina, classe econômica A ou B, filha de pais casados, vivendo com eles sob o mesmo teto, tendo eles curso superior completo e sua mãe, bem esclarecida sobre os riscos, não tenha feito uso de tabaco ou álcool durante a sua gestação. Crianças e adolescentes nessa condição menos frequentemente fracassam, só mesmo por obra do acaso, da genética, dos acidentes de percurso e de outras variáveis menos prováveis.

Esses e outros dados do mais amplo e atual estudo sobre Saúde Mental em crianças e adolescentes brasileiros, o Projeto Atenção Brasil, serão em breve divulgados no Congresso Aprender Criança, a ser realizado de 6 a 8 de agosto na cidade de Ribeirão Preto (SP). O estudo, idealizado por pesquisadores do Instituto Glia, Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, Universidade La Sapienza de Roma e Albert Einstein College of Medicine de Nova Iorque, avaliou perto de 9 mil crianças e adolescentes de 17 estados e 81 cidades brasileiras.

O estudo revela ainda diferenças regionais no comportamento infantil, enquanto as crianças da região Sul mostram-se mais “agitadas” e as do Sudeste são mais “queridas por outras crianças”, as das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste são mais gentis e mais frequentemente compartilham com outras crianças, apresentam mais acessos de raiva e birras, preferem brincar só, mais frequentemente mentem e são atormentados por outras crianças. Crianças e adolescentes de cidades grandes (>500 mil habitantes) são mais gentis com crianças mais novas, os que vivem em cidades pequenas (<100 mil habitantes) são mais irrequietos, apresentam mais acessos de raiva e birra, referem medos excessivos e completam melhor suas tarefas com atenção.

As meninas são as legítimas campeãs dessa Copa Brasileira da Saúde Mental e desempenho escolar infantil, sua chance de ter melhores índices nessas áreas é 60% maior que a dos meninos. Os meninos são mais irrequietos e hiperativos, apresentam mais acessos de raiva e birras, preferem brincar só, brigam com outras crianças, distraem-se com maior facilidade e mais frequentemente mentem e furtam.

As campeãs, por sua vez, mais frequentemente demonstram consideração pelos sentimentos de outras pessoas, são mais prestativas com alguém que parece magoado, mais frequentemente têm uma boa amiga e são gentis com as crianças mais novas, pensam antes de agir e são mais perseverantes.

Considerando índices globais estimados pelos pesquisadores, enquanto os meninos apresentam maior número de dificuldades, mais problemas de conduta, hiperatividade, problemas com colegas e de comportamento social, as meninas apresentam maior número de sintomas emocionais. Nos meninos, esses sintomas provocam um maior impacto nos vários contextos de vida aumentando o risco de transtornos mentais.

A pesquisa revela que 28% das crianças e adolescentes brasileiros avaliados apresentam desempenho escolar abaixo da média, dado justificado pelas recentes humilhantes colocações do Brasil nas Copas do Mundo do desempenho escolar.

Conhecer melhor esse retrato e os fatores de risco e proteção para Saúde Mental e desempenho escolar é tarefa urgente para todo Educador, seja pai ou professor, e obrigação civil para as autoridades responsáveis por políticas públicas voltadas às crianças e adolescentes brasileiros. Com esse GPS, certamente será mais fácil chegar aos destinos desejados.

Saúde Mental e desempenho escolar na infância e adolescência são temas da maior importância numa sociedade em permanente transformação, não entram nas estatísticas de índices econômicos ou de desenvolvimento, mas, sem sombra de dúvida, fazem toda diferença nos desfechos de vida que mais desejamos para os nossos filhos. Afinal, "gente quer comer, gente quer ser feliz, gente é prá brilhar, não prá morrer de fome, gente espelho da vida, doce mistério” (Caetano Veloso).

Fonte: Marco Antônio Arruda Neurologista da Infância e Adolescência Doutor em Neurologia pela Universidade de São Paulo -  Coordenador do Projeto Atenção Brasil

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